Azulejaria - Palácio Anadia

Azulejaria

Também, devido à utilização sistemática do azulejoao longo de todo o percurso de aparato do andar nobre (por vezes, ultrapassando a mera expressão pictórica para tornar-se na própria essência do espaço arquitectónico)[1], ao passar pelos salões do Palácio dos Condes de Anadia (à excepção da sala de jantar)[2], não encontramos “descontinuidades entre espaços realizados num e outro período. As premissas de um espaço global e envolvente que fora uma das direcções da arte barroca são ainda presentes”[3].

Portugal, na época áurea de D. João V, passou por um período de grandeza e prosperidade, só comparado ao tempo da expansão ultramarina e das conquistas portuguesas do Oriente. A descoberta e exploração de grandes jazidas de ouro e diamantes em Minas Gerais (Brasil), possibilitaria através do mecenato régio, dos grandes eclesiásticos e da nobreza, que as artes alcançassem um notável desenvolvimento do norte ao sul do país.

O aumento exponencial das encomendas de obras artísticas, ditava a contratação de todos os mestres e artífices disponíveis, fazendo atrair para Portugal muitos estrangeiros que pelas suas qualidades técnicas, faziam falta para a realização de grandes obras de arquitectura, nomeadamente aquelas de intervenção Régia. Neste contexto, ditado pela crescente procura, assiste-se a um progresso extraordinário no domínio das artes decorativas (entalhamento, azulejaria, marcenaria e ourivesaria), tendo a mestria da talha e do azulejo alcançado verdadeiros níveis de perfeição.

Neste âmbito, podemos vislumbrar no Palácio do Condes de Anadia, magníficos exemplos dessa época magistral da arte azulejar em Portugal, como acontece no conjunto da escadaria e do salão nobre, revestidos por copiosos painéis com azulejos da escola de Coimbra, datados c. de 1740, e atribuídos a Salvador Sousa Carvalho. “Grande parte desta espectacularidade deve-se às extensas superfícies de azulejaria azul e branca, de muito maior altura que a costumada e recortadas sobre o branco das paredes”[4].

Os painéis da escadaria, cujo repertório iconográfico é decalcado da obra da autoria de Amadeo di Castellamonte : “La Venaria Reale – Palazzo di Piacere e di Caccia”, editada em 1672. Como o título refere, apresenta com exuberância o prazer pela caça no Palácio do Duque de Sabóia, tratando o tema primeiramente através de cenas mitológicas sobre Diana, deusa da caça, seja a da Metamorfose de Actéon, seja a de Diana libertando a ninfa Britomarte, e matando o Dragão, apresentando, no seguimento do primeiro patamar e dos dois lanços até chegar ao segundo, a exaltação da Família do Duque Carlos Emanuel II, dispostos em parada equestre, como também amazonas caçando.

Para além da funcionalidade arquitectónica propriamente dita, a escadaria reveste-se de grande simbolismo e significado, pois se, por um lado, representa uma afirmação do estatuto aristocrático do Senhor da Casa, intuindo gravidade e cerimónia condizentes com o espaço envolvente; por outro, utilizando o percurso iconográfico como meio introspectivo, incita as novas gerações através de gesta de Diana (deusa da caça), como reflexo de uma imagem associada às práticas venatórias para a educação da nobreza, apresentando “as virtudes do Princeps exaltadas pela caça, definindo o seu perfil moral ideal; a ambição, a dignidade, o decoro, a elegância, a habilidade (pela audácia e prudência), através do gosto pela conquista e pelo prazer do jogo”[5].

A respeito do centro coimbrão de produção azulejar, refere José Meco: “Este centro cerâmico continuou a realizar um número apreciável de composições de azulejos, com predominância dos painéis figurativos, os quais conservam a rudeza e a decoração massificada da época anterior, atingindo uma extroversão bastante mais acentuada, (…), culminando nos altos recortes dos painéis da escadaria nobre e de uma sala do Solar dos Condes de Anadia, em Mangualde”[6].

No amplo Salão Nobre surgem novamente grandes painéis de azulejos atribuídos a Sousa Carvalho, “com o mesmo traço, cromatismo e linguagem decorativa dos painéis cerâmicos anteriormente descritos”[7], representando simbolicamente as quatro partes do Mundo conhecidas até então: Europa, África, Ásia e América; bem como os quatro elementos representados por deuses Romanos: Ar – Juno; Água – Neptuno; Fogo – Vulcano e Terra – Vénus.

Ao longo do corpo principal a poente, à excepção do Salão Nobre (como mencionado), encontramos todas as outras salas e divisões revestidas de silhar de azulejos pombalinos (azul e branco) de tipo padrão. O contraste entre a sobriedade dos mesmos e os exuberantes painéis do Salão Nobre, faz com que haja uma melhor harmonização da continuidade decorativa azulejar, assinalando sem quebra, a passagem das épocas ao longo do percurso para a Sala de Baile (situada no corpo sul).

Por fim, a Sala de Baile, é revestida de silhar de azulejos “rococó, com o característico trabalho em concha e um cromatismo amarelo forte adicionado ao tradicional azul e branco da época”[8], atribuídos ao Mestre Manuel da Silva (escola de Coimbra, c. 1770)[9], representando “O Mundo às Avessas” sob cartões de Oudry que ilustrou as Fábulas de La Fontaine e que tratou este raro tema.

Trata-se de uma iconografia peculiar, onde são tratados três assuntos aparentemente distintos, mas que têm por denominador comum, por em causa certas teorias e normas da vida em sociedade (assentes no direito natural), suscitando, “através da figuração do absurdo”, difundir novos modelos comportamentais.

O primeiro representa diversas situações invertendo os papéis entre o Homem e os animais: – Matança do homem pelo porco, Torneio em que os cavalos seguem montados nos cavaleiros, Burros a carroça que tocam moleiros, Mulas e burros conduzem homens carregados com albardas, Cavaleiros caçam animais dentro de água ao mesmo tempo que peixes nadam no ar, e Pesca de um rapaz por um peixe. Estas representações querem simbolizar o confronto entre a Natureza e a Razão, pondo em evidência a ordem hierárquica da sociedade do antigo regime.

O segundo “alude à inversão da ordem física da posição dos astros, num tom humorístico em relação às teorias astronómicas difundidas a partir de Seiscentos – A terra no céu, acima das nuvens, e a Lua e Sol na terra”. E ainda por último, relativo aos “papeis do Homem perante a ordem social e natural, – O marido com bebé ao colo e a mulher armada, A filha a alimentar a mãe, e A aluna a açoitar a professora – focam a contraposição entre a ordem social e o seu avesso, aludindo às relações de subordinação presentes na sua hierarquia, pela inversão do papel de autoridade”[10].

Não há dúvida que estamos perante um conjunto de painéis de grande raridade em Portugal e no Mundo, representativos dos novos tempos do século das luzes e do domínio da razão, em contraposição à sociedade hierárquica do antigo regime, que curiosamente bailava e se divertia perante tão jocosas diatribes.


[1]Em especial os magníficos painéis figurativos que revestem a escadaria e salão nobre, mas também os das outras salas de silhar azul e branco de tipo padrão, como inclusive os painéis da sala de baile com motivos rocócó, representando o “Mundo às Avessas”.[2]A sala de jantar é um conjunto decorativo único no nosso país e mais uma vez remete-nos para a História familiar e a sua ligação a Nápoles.O colorido dos frescos das paredes e os padrões empregues são em tudo uma cópia fiel dos achados arqueológicos de Herculano e de Pompeia. As cores esmorecidas (azuis, ocres e encarnados) são retiradas dos livros de desenhos coloridos à aguarela que foram produzidos nessa época como forma de guardar para a posteridade essas composições cromáticas (N. hoje em dia já não há praticamente vestígio em Herculano e Pompeia da paleta de cores admiradas no séc. XVIII pelos arqueólogos e artistas que lá trabalhavam). Além da paleta cromática referida, há que destacar os enquadramentos de motivos naturalistas pintados nas paredes ao longo de toda a sala, onde sobressaem os motivos de natureza morta, nomeadamente de caça e pesca.[3]Helder Carita; e Homem Cardoso, Oriente e Ocidente nos Interiores em Portugal, Porto, Livraria Civilização Editora, s.d., pp. 190 e 192.[4]Júlio Gil, Os Mais Belos Palácios de Portugal, Editorial Verbo / Edimpresa Editora Lda., Lisboa, 2005, p. 73.[5]Diana Gonçalves dos Santos, “Solar dos Paes do Amaral”, in Azulejos – Maravilhas de Portugal, p. 100.[6]Júlio Gil, Os Mais Belos Palácios de Portugal, p. 73.[7]Diana Gonçalves dos Santos, “Solar dos Paes do Amaral”, in Azulejos – Maravilhas de Portugal, p. 101.[8]Marcus Binney, Casas Nobres de Portugal, Difel – Difusão Editorial Lda., Lisboa, 1987, p. 121.[9]Helder Carita, A Casa Senhorial em Portugal – Modelos, Tipologias, Programas Interiores e Equipamento, Associação Portuguesa das Casas Antigas, Lisboa, 2016, p. 317.[10]Diana Gonçalves dos Santos, “Solar dos Paes do Amaral”, in Azulejos – Maravilhas de Portugal pp. 101 e 105.

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