Interiores do Palácio Anadia em Mangualde

Interiores

A porta de entrada principal, conduz a um átrio com cobertura abobadada e chão aparelhado de lajes estriadas (para possibilitar o acesso de cavalgaduras), adossado por um lanço de cinco grandes degraus atravessados de um arco abatido trabalhado (ladeado por vãos), seguido de patamar que dá acesso a uma majestosa escadaria de um lanço (revestida de painéis figurativos de azulejos azul e branco), que se subdivide entre dois patamares ligados por corrimão de pedra (também revestido de azulejos), ao cimo da qual ergue-se um magnífico portal ricamente trabalhado encimado por pedra d’armas da Família Paes do Amaral.

A magnificência do conjunto arquitectónico desta escadaria de aparato real, é ainda realçada pelo grande pé-direito do espaço envolvente, culminando num alto tecto em caixotão policromo de requintado decorativismo barroco (centrado pelas armas da Família Paes do Amaral), em perfeita articulação com o vestíbulo e a entrada para o salão nobre. “A entrada e escadarias tratadas como espaços intermédios, interior em relação à rua e exterior em relação à casa, são ainda uma pseudo-metamorfose do pátio interior, ao adaptar-se a um programa de núcleo central de tradição europeia”[1].

No salão de aparato barroco de grandes dimensões, revestido de um notável conjunto de painéis de azulejos setecentistas, três grandes vãos de sacada deixam entrar a luz, que passando por uma “fina película de brilhos e reflexos aquáticos” irradiados pelos azulejos joaninos, substituem o “tratamento arquitectónico em volume por um envolvimento superficial, dotando o espaço de uma calma luminosidade mediterrânica”[2]. Este espaço, marca o eixo central do andar nobre da casa, sendo visível o imponente encadeamento de salas do corpo principal do edifício.

A partir de finais do séc. XVIII, a função espacial da casa tende gradualmente a deixar a concepção barroca, nitidamente utilizada como símbolo de cerimónia, dignidade e poder, para transformar-se num aprazível espaço de convívio familiar e social, assente na estética de um humanismo profano. Apesar das diversas campanhas de obras por que passou este Palácio até chegar a ser concluído (ao longo do séc. XVIII até ao despontar de oitocentos), constata-se que a Família Paes do Amaral, como outras Famílias pertencentes à nobreza rural (em geral mais tradicionalistas), apenas utilizaria os motivos decorativos do estilo neoclássico (segundo o gosto da época da Rainha D. Maria I) para decorar quartos e salas mais pequenas da intimidade familiar[3], mantendo a decoração do barroco para aqueles espaços de aparato público (entradas, escadarias e salões).


[1]Helder Carita; e Homem Cardoso, Oriente e Ocidente nos Interiores em Portugal, Porto, Livraria Civilização Editora, s.d., p. 128.[2]Idem, ibidem, p. 131.[3]É o que acontece na sala de música do piso térreo, decorada com exuberante paleta de cores e motivos pompeianos (ver nota seguinte em referência à sala de jantar).

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